terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Esparta - Sob o Olhar de Plutarco

Os trexos a seguir foram extraídos da obra " A Vida dos Homens Ilustrres", de autoria de Plutarco, traduçao original francesa de 1818.
Plutarco, analisando a vida do governante Licurgo nos traz um dos melhores relatos sobre a vida em Lacônia / Esparta. Licurgo foi o responsável pelas implantações das leis que fizeram de Esparta a cidade guerreira cujos relatos chegaram até nossos dias.

Apresento então estes trechos, dividos por temas para melhor compreensão:
1 – Liderança

“Houve, nessa modificação do estado promovida por Licurgo, muitas novidades, mais a primeira foi a instituição do Senado, o qual, misturando o poder dos reis e igualando a eles quanto à autoridade nas coisas de conseqüência, foi, como diz Platão, um contrapeso salutar no corpo unificado da coisa publica...”

2 – Generosidade

“A segunda novidade de Licurgo, e a de mais ousadia e mais difícil empresa, foi mandar de novo repartir as terras: pois, havendo no país de Lecedemônia grande dificuldade e desigualdade entre os habitantes, porque uns, e a maior parte, eram tão pobres que não tinham uma só polegada de terra, e outros, em bem pequeno número, tão opulentos que possuíam tudo, ele advertiu que, para expulsar da cidade e insolência, a inveja, a avareza, as delícias e, mais a riqueza e a pobreza, que são ainda maiores e mais antigas pestes das cidades...”
  
3 – Riqueza

“depreciou toda espécie de moeda, de ouro e de prata, ordenando que se usasse somente moeda de ferro, da qual ainda uma grande pesada massa era de bem pouco preço, de tal maneira que, para se alojar dela o valor de cem escudos, seria preciso impedir todo um grande celeiro...”

4 – Consumismo e Protecionismo

“Depois disso, baniu também todos os misteres supérfluos e inúteis, e, ainda que por édito não os tivesse perseguido, teriam assim desaparecido todos, ou a maior parte, com o usa da moeda, quando não mais encontrassem quem ficassem com seus trabalhos, porque as moedas de ferro não tinham curso nas outras cidades da Grécia, antes zombavam dela por toda parte, e dessa forma não podiam os Lacedemônios comprar mercadorias estrangeiras...”

5 – Humildade, tolerância e bons hábitos alimentares

 "...ordenou que eles (os cidadãos de Lecedemônia, comessem juntos das mesmas viandas..., proibia de comerem a parte e em particular sobre ricas mesas e leitos suntiosos, abusando do labor dos excelentes operários e requintados cozinheiros, para engordarem em segredo e nas trevas, como se engordam os animais glutões: o que arruína e corrompe não somente as condições da alma, mas também as compleições do corpo...”

6 –  Aprendizado

“As próprias crianças iam a esses convívios, nem mais nem menos do que a escolas de honra e temperança, onde ouviam boas e graves palestras referentes ao governo da coisa publica, por mestres que não eram mercenários”

7 – Respeito

“Pois é uma qualidade entre os Lecedemônios, tolerar com paciência uma pilheria; todavia, se algum houvesse que não gostasse disso, bastava pedri ao outro que se abstivesse, e este incontinenti cessava. Mas era costume que a todos os que entravam na sala de convívio o mais velho dissesse, mostrando-lhe a porta: “Nenhuma palavra sairá por esta porta.”

8 – Respeito a mulher

 “Mas os que desejavam casar-se precisavam raptar aquelas que pretendiam como esposas, não moçoilas ainda não casadouras, mas mulheres vigorosas e já maduras para terem filhos; e quando havia uma raptada em tais condições vinha a intermediária do casamento e lhe raspava inteiramente os cabelos até o couro, depois a vestia com um traje de homem e do mesmo modo o calçado, e deitava-se sobre o colchão, inteiramente só e sem candeia. Feito isso, o recém-casado, não estando ébrio, nem mais delicadamente vestido como de costume, mas tendo jantado sóbriamente como de ordinário, voltava secretamente para a casa, onde desatava a cintura da esposa e, tomando-a nos braços, deitava-a numa cama e ali ficava durante algum tempo com ela; mais tarde, voltava muito docemente para o lugar onde se acostumara a dormir com os outros rapazes...”

9 – Confirmação do Papel da Mulher na Sociedade Espartana

"Também era permitido a um homem honesto amar a mulher de outro, por vê-la prudente, pudica e capaz de ter belos filhos, e pedir ao marido que o deixasse deitar-se com ela, para então semear, como em terra gorda e fértil, belas e boas crianças, que dessa forma vinham a ter comunicação de sangue e parentesco com gente de bem e honrada.”

10 – Sobre a Educação Espartana

"Pois logo que estes chegavam a idade de sete anos, ele os tomava e os distribuía por grupos, para serem educados juntos e se habituarem a brincar, aprender e estudar uns com os outros..."

11 – Carreira

"Quanto as letras aprendiam somente o necessário e, em suma, todo o aprendizado consistia em obedecer, suportar o trabalho e obter a vitória em combate. Por essa razão, à medida que avançavam em idade, aumentavam-lhes também os exercícios corporais; raspavam-lhes os cabelos, faziam-nos andar descalços e os constrangiam a brincar juntos a maior parte do tempo, inteiramente nus; depois, quando chegavam à idade de doze anos, não mais usavam saios daí por diante, pois todos os anos lhe davam somente uma túnica simples, o que era causa de andarem sempre sujos e ensebados, como aqueles que não se lavam nem se untam senão em certos dias do ano, quando os faziam gozar um pouco de doçura...”

13 – Iniciação Sexual

"Mais ou menos nessa idade (12 anos), seus amantes, que eram os rapazes mais galhardos e mais gentis, começavam a frequentá-los mais assiduamente, e também os velhos tinham as vistas semelhantemente voltadas para eles, aparecendo mais ordinariamente nos lugares onde faziam os exercícios e onde combatiam, e assistindo-os quando se divertiam em pilheriar um com os outros...”

14 –Corresponsabilidade Entre Parceiros

“Além disso, imputavam-se aos amantes a boa ou má opinião que se concebia dos meninos que haviam tomado para amar, de sorte que se diz que, tendo certa vez um menino, combatendo contra outro, deixando escapar da boca um grito que lhe revelou a coragem frouxa e falida, seu amante foi por isso condenado à multa pelos oficiais da cidade. Mas, conquanto o amor fosse coisa tão incorporada entre eles que até as mulheres honestas e virtuosas amavam as meninas, não havia contudo ciúmes, mas, ao contrário, era isso um começo ded mútua amizade entre os que amavam no mesmo lugar; e procuravam juntos, por todos os meios de que podiam dispor, fazer que o menino que amava em comum fosse o mais gentil e o melhor condicionado de todos os outros. Ensinavam os meninos a falar de sorte que sua linguagem tivesse malícia misturada de graça e prazer, e que em poucas palavras compreendesse muita substância."

15 – Modo de Falar

"Porque exatamente assim como a semente dos homens luxuriosos, que se misturam frequentemente e dissolutamente demais com as mulheres, não pode germinar nem frutificar, também a intemperança de falar demais torna a palavra vã, tola e vazia de sentido. Daí vem que as respostas Lacônicas eram tão agudas e tão sutis...Quanto a mim, sou da opinião que os Laconios, em sua maneira de falar, não usam de muita linguagem, mas tocam muito bem no ponto e se fazem entender muito pelos ouvintes.”
“...pode-se também fazer conjectura de sua maneira de falar pelas palavras jocosas que as vezes diziam brincando, porque estavam acostumados a jamais dizer nada no ar ou em vão, tendo sempre em cada palavra alguma inteligência secreta que a tornava merecedora de ser considerada de perto...”

16 – Bem Vestir Oportuno

"Mas, então, relaxavam um pouco os jovens a rígida austeridade e dureza de sua regra ordinária de viver, permitindo-lhes que enfeitassem os cabelos e embelezassem as armas e indumentos...não eram jamais tão cuidadosos em pentear e compor como quando estavam prestes a dar batalha; pois então os untavam (os cabelos) com óleos perfumados e os repartiam...”

17 – Compromisso Social

"Mas, para voltar aos Lacedemônios, sua disciplina e regra de viver durava ainda depois de haverem chegado a idade de homens, pois não havia ninguém a quem fosse tolerado nem permitido viver como entendesse, antes ficavam dentro da cidade nem mais nem menos do que dentro de um acampamento, onde cada qual sabe o que deve ter para viver e o que deve fazer para público...”

18 – Continuidade de Compromisso

“Quanto aos processos, pode-se bem imaginar que foram banidos de Lecedemonia com o dinheiro, mesmo porque não havia avareza, cobiça, pobreza, nem indigência, antes igualdade com abundância e grande comodidade de viver, por causa da sobriedade, sem nenhuma superfluidade...”

 “Em suma, nada deixou ocioso, pois entre todas as coisas que os homens não podem dispensar introduziu sempre algum aguilhão incitando os homens à virtude e fazendo-os odiar o vício; e encheu a cidade de belos e bons ensinamentos e exemplos, de forma que o homem assim educado, encontrando-os sempre diante dos olhos em qualquer parte onde se achasse, vinha por força moldar-se e formar no padrão de virtude”.


Liderança

“Houve, nessa modificação do estado promovida por Licurgo, muitas novidades, mais a primeira foi a instituição do Senado, o qual, misturando o poder dos reis e igualando a eles quanto à autoridade nas coisas de conseqüência, foi, como diz Platão, um contrapeso salutar no corpo unificado da coisa publica...”


Existe um idéia errônea ao julgar que a liderança se faz de forma centralizadora. O governo de Esparta tem seu caráter descentralizador, determinando representantes do povo escolhidos por aclamação popular entre os anciãos, homens que no decorrer da vida conheceram de perto, vivenciaram os problemas do povo.
Esparta foi por muitos anos citada como um governo exemplar, ideal, e a capacidade de governar de seus líderes também era algo notável. Desta vem a principal lição que é saber escolher bens seus governantes e ter, como líder, sempre os pés no chão e os olhos nas necessidades de seus liderados.
Creio que ao moderno espartano cabe aprender primeiramente em compartilhar suas conquistas, as escolhas devem ser feitas de forma a atender as necessidades de todos, não somente a vontade de um, porém, de todo o grupo.
Os líderes não devem agradar à minorias, mas serem vigilantes em fazer de sua liderança um benefício reconhecido pelos demais. Em cada escolha deve prevalecer sempre a democracia.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Generosidade

“A segunda novidade de Licurgo, e a de mais ousadia e mais difícil empresa, foi mandar de novo repartir as terras: pois, havendo no país de Lecedemônia grande dificuldade e desigualdade entre os habitantes, porque uns, e a maior parte, eram tão pobres que não tinham uma só polegada de terra, e outros, em bem pequeno número, tão opulentos que possuíam tudo, ele advertiu que, para expulsar da cidade e insolência, a inveja, a avareza, as delícias e, mais a riqueza e a pobreza, que são ainda maiores e mais antigas pestes das cidades...”


Como é possível desconsiderar a necessidade de um irmão? Saber compartilhar mostra a generosidade do espartano.
Quando se fala em generosidade não se trata apenas de ajuda financeira em momentos difíceis porém da ajuda necessária a ser dada a um irmão que necessite superar um problema.
Aquele que recebe tal generosidade tem a obrigação de honrar a ajuda de seus colegas esforçando-se a superar o problema ou a “má fase” e devolver, seja aos mesmos irmãos ou a outros a ajuda recebida. Dessa forma não haverá cobiça entre os irmãos, mas respeito e admiração a que cada um conquistou.
A idéia da divisão das terras entre os indivíduos em Esparta está muito associada a questão da liberdade. Em oposição a sociedade ateniense, os indivíduos em Esparta não corriam o risco de serem escravizados e terem suas famílias escravizadas por conta de pagamento de dívidas e a tomada de seus bens. Em Esparta cada cidadão tinha seu pedaço de terra que lhe permitia produzir bens suficientes para garantir o sustento de sua família, além disso, o sistema de refeições coletivas garantia que todo indivíduo recebesse de forma igual ao seu companheiro a parte daquilo que fora produzido no território. O indivíduo Espartano deveria ser generoso pois desenvolvia-se acostumado  a dividir tudo o que possuía.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco



Riqueza

 “depreciou toda espécie de moeda, de ouro e de prata, ordenando que se usasse somente moeda de ferro, da qual ainda uma grande pesada massa era de bem pouco preço, de tal maneira que, para se alojar dela o valor de cem escudos, seria preciso impedir todo um grande celeiro...”

Quando se da valor aos homens, estes não precisam ostentar riquezas. Não devemos mostrar status através de objetos ou coisas de valor e sim através da valorização e do reconhecimento das pessoas às coisas que temos em nós mesmo como indivíduos, seres humanos. De nada vale cobrir-se de ouro uma pessoa sem valor, isso não a tornará valorosa, porém um homem de valor, honesto, todos conhecem e respeitam. O quanto de dinheiro ou riquezas que um homem possui não deve servir de parâmetro para avaliar um indivíduo.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Consumismo e Protecionismo

“Depois disso, baniu também todos os misteres supérfluos e inúteis, e, ainda que por édito não os tivesse perseguido, teriam assim desaparecido todos, ou a maior parte, com o usa da moeda, quando não mais encontrassem quem ficassem com seus trabalhos, porque as moedas de ferro não tinham curso nas outras cidades da Grécia, antes zombavam dela por toda parte, e dessa forma não podiam os Lacedemônios comprar mercadorias estrangeiras...”


Refreamento do consumismo, colocando em primeiro plano a solução das reais necessidades. Protegeu também o produto nacional não permitindo o comércio de produtos estrangeiros, isso é, de outras nações fora de Esparta, inclusive os atenienses. Temos aqui dois problemas de nossa atualidade, primeiramente o consumismo desenfreado com a aquisição de coisas supérfluas, coisas as quais não temos necessidade e, frequentemente essas coisas supérfluas são objetos importados, produzidas de forma a agregar valor a matéria prima produzida nos países mais pobres.
Muitas vezes, em tempos de crise, vimos nossa indústria ser arruinada pela competição desleal de produtos estrangeiros além do “hábito burguês” arraigado em nossa sociedade de mentalidade “colonialista” que deprecia as coisas produzidas no país em pró do consumo as coisas vindas do estrangeiro. Um espartano deve ter orgulho de sua indústria, da força que gera emprego em seu país, preferir o nacional ao estrangeiro como forma de garantir o crescimento econômico de seu país e o emprego seu e de seus companheiros.
Além disso, a restrição a bens supérfluos redirecionou a valoração as coisas que realmente deveriam ter importância ao indivíduo como ferramentas e habilidades contribuintes a uma sociedade organizada e igualitária. O valor do espartano estava em sua terra e em sua maneira de viver.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Humildade,tolerância e bons hábitos alimentares

 "...ordenou que eles (os cidadãos de Lecedemônia, comessem juntos das mesmas viandas..., proibia de comerem a parte e em particular sobre ricas mesas e leitos suntuosos, abusando do labor dos excelentes operários e requintados cozinheiros, para engordarem em segredo e nas trevas, como se engordam os animais glutões: o que arruína e corrompe não somente as condições da alma, mas também as compleições do corpo...”


Todo irmão é digno de sentar a mesa de outro irmão e compartilhar com este seu convívio, desde que dentro das regras de respeito e de ética.
Quando instituiu as refeições compartilhadas em locais públicos, Licurgo pretendia criar a prática do convívio de todas as camadas sociais, impondo aos mais nobres o contato com o menos nobres, tornando todos acessíveis uns aos outros.
Queria também controlar os hábitos alimentares garantindo uma alimentação adequada ao “cidadão guerreiro” e de forma igual para que ninguém padecesse da fome nem se empanturrasse a ponto de ter sua saúde e forma física comprometida e menos apta a guerra.
Conta a história que Licurgo, em uma revolta popular por essa decisão, foi perseguido e teve seu olho ferido; somente mais tarde os espartano reconheceram o valor dessa ordem.
Todos os homens assim eram incentivados a produzir, pois, se não o fizessem estaria comendo as custas de seu irmão, e se muitos não produzissem todos seriam prejudicados pois cairia a quantidade de comida a se servir, já que o pouco seria dividido com muitos. Mais uma vez, observamos o esforço dos legisladores espartanos em criar uma consciência coletiva ao indivíduo. Isso permitia também que o Estado espartano também fizesse reservas de alimentos para tempos difíceis ou manter seu modo de vida enquanto em guerra.
Ao espartano não era permitido alimentar-se em sua casa, a não ser em raras ocasiões como ao chegar muito tarde em casa após uma caçada.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Aprendizado

“As próprias crianças iam a esses convívios, nem mais nem menos do que a escolas de honra e temperança, onde ouviam boas e graves palestras referentes ao governo da coisa publica, por mestres que não eram mercenários”


O dever de aprender fazia parte de todo o decorrer da vida do espartano. Os mais novos deviam respeitar os mais velhos e aprender com eles. Os mais velhos deveriam cuidar dos mais novos como se esses fossem seus filhos e, independente dos laços de sangue, deveriam ensinar e cuidar deles como sua responsabilidade.
Em uma visão onde todas as crianças e jovens eram bem da sociedade, as crianças, apesar dos duros treinos do agogê, eram cuidadas para que se desenvolvessem e tornassem guerreiros. Nessa educação havia a conscientização de sua importância dentro da engrenagem social, aprendendo a discernir o que era bom e ruim para o coletivo. Estimulava-se o senso crítico e a avaliação das ações das pessoas e ao jovem era solicitada a opinião. A falta de interesse nas questões públicas era compreendida com uma falha na formação do jovem espartano.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Respeito

“Pois é uma qualidade entre os Lecedemônios, tolerar com paciência uma pilheria; todavia, se algum houvesse que não gostasse disso, bastava pedir ao outro que se abstivesse, e este incontinenti cessava. Mas era costume que a todos os que entravam na sala de convívio o mais velho dissesse, mostrando-lhe a porta: “Nenhuma palavra sairá por esta porta.”

Existem pessoas que não sabem a hora de parar uma brincadeira, passando do limite e desrespeitando seu irmão. Entre irmãos espartanos deve haver sempre o respeito preservando os limites da amizade e sempre respeitando o amor próprio e os sentimentos dos outros.
Caso algo não nos agrade, devemos logo falar, resolver as coisas com o diálogo e de forma franca para que não haja ressentimento no futuro. Quem falhou deve ter a humildade de reconhecer seu erro e não o repetir com o companheiro, a quem se foi falho a humildade de aceitar um pedido de perdão.
Muitas vezes, temos entre nós indivíduos que fazem do escarno uma arma ridicularizando e atacando com palavras os pontos fracos dos outros indivíduos, fazendo uso de palavras ofencivas, duplo sentido para fazer dos outros palhaço para o divertimento dos demais. Em uma irmandade a qual se busca valorizar a virtude, esse tipo de atitude não deve ser tolerada.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Respeito à mulher

“Mas os que desejavam casar-se precisavam raptar aquelas que pretendiam como esposas, não moçoilas ainda não casadouras, mas mulheres vigorosas e já maduras para terem filhos; e quando havia uma raptada em tais condições vinha a intermediária do casamento e lhe raspava inteiramente os cabelos até o couro, depois a vestia com um traje de homem e do mesmo modo o calçado, e deitava-se sobre o colchão, inteiramente só e sem candeia. Feito isso, o recém-casado, não estando ébrio, nem mais delicadamente vestido como de costume, mas tendo jantado sóbriamente como de ordinário, voltava secretamente para a casa, onde desatava a cintura da esposa e, tomando-a nos braços, deitava-a numa cama e ali ficava durante algum tempo com ela; mais tarde, voltava muito docemente para o lugar onde se acostumara a dormir com os outros rapazes...”

Entendo essa passagem em dois aspectos importantes. Primeiramente a confirmação da atração sexual dos espartanos por pessoas do mesmo sexo de forma a impor como ritual a “masculinização” de uma mulher para manter relações sexuais com um guerreiro. Além disso, mesmo unindo-se a uma mulher, algo necessário a produção de “novos guerreiros para o estado” o espartano não passava a noite com sua companheira e sim com seus companheiros em abrigos coletivos.
Outro aspecto é o respeito as mulheres. Apesar do caráter dessas relações, o homem tinha o dever de ser gentil, carregando a companheira a um leito confortável e mantendo com ela relações sem estar embriagado.
Muitas vezes ouvimos no meio gay referencias debochadas sobre as mulheres, referindo-se a elas de forma desrespeitosa ou pejorativa, porém não devemos esquecer de reconhecer a importância da mulher na sociedade e na constituição da família a qual todos nós pertencemos independente de as termos ou não como objeto de desejo sexual, devemos respeitar a todos independente do sexo. Só é digno de respeito quem sabe respeitar!

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Confirmação do Papel da Mulher na Sociedade Espartana

"Também era permitido a um homem honesto amar a mulher de outro, por vê-la prudente, pudica e capaz de ter belos filhos, e pedir ao marido que o deixasse deitar-se com ela, para então semear, como em terra gorda e fértil, belas e boas crianças, que dessa forma vinham a ter comunicação de sangue e parentesco com gente de bem e honrada.”


Aqui se reafirma o caráter “reprodutivo” da figura feminina em Esparta, contudo elas eram respeitadas e vistas de forma muito próxima aos homens. A elas era impostas semelhantes treinamentos e privações aos quais se submetiam os homens. As mulheres espartanas orgulhavam-se de seus homens e os homens orgulhavam-se de suas mulheres por elas serem tão parecidas com eles, fortes!

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Sobre a Educação

"Pois logo que estes chegavam a idade de sete anos, ele os tomava e os distribuía por grupos, para serem educados juntos e se habituarem a brincar, aprender e estudar uns com os outros..."

A educação dos espartanos era responsabilidade do Estado. Um filho não pertencia aos pais e sim ao Estado e este tomava conta do jovem a partir deste completar 7 anos de idade.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Carreira

"Quanto as letras aprendiam somente o necessário e, em suma, todo o aprendizado consistia em obedecer, suportar o trabalho e obter a vitória em combate. Por essa razão, à medida que avançavam em idade, aumentavam-lhes também os exercícios corporais; raspavam-lhes os cabelos, faziam-nos andar descalços e os constrangiam a brincar juntos a maior parte do tempo, inteiramente nus; depois, quando chegavam à idade de doze anos, não mais usavam saios daí por diante, pois todos os anos lhe davam somente uma túnica simples, o que era causa de andarem sempre sujos e ensebados, como aqueles que não se lavam nem se untam senão em certos dias do ano, quando os faziam gozar um pouco de doçura...”


Apesar de mostrar pouco valor a educação teórica, mostra aqui o extremo racionalismo dos espartanos em relação ao preparo do indivíduo a carreira. A um militar naqueles tempos mais valia tinha seu vigor físico e habilidade em armas que desenvolver habilidades literárias. Vale lembrar que Pitágoras era espartano...
Outro aspecto importante a ser notado é que havia um esforço muito grande em incentivar os jovens a socialização pois possuíam o conhecimento que a ação de guerrear demandava um perfeito entrosamento da equipe e não apenas da ação individual, era necessário aprender a trabalhar em equipe.
Até mesmo a troca de roupa era restringida como algo desnecessário, não por falta de higiene mas como uma forma de submeter os indivíduos a uma situação real de guerra onde é necessário tirar o máximo de cada recurso oferecido, sem desperdício a o indivíduo, sem chances de escolha, é obrigado a suportar as adversidades.
Existia uma intensa racionalização na aquisição do conhecimento, orientando os jovens a serem os melhores e a ocuparem suas mentes com conhecimentos que pudessem aplicar em seu futuro. Como em outras coisas, até mesmo talvez num visão errada, o espartano opunha-se ao sistema educacional ateniense ou praticado em outras partes da Grécia pois acharam que este era responsável pela decadência das habilidades do homem em guerrear e defender sua nação. O culto as coisas supérfluas gerava a indolênia e levava o indivíduo a ocupar-se de coisas que não contribuiriam de forma positiva a sociedade.
Hoje, lugar comum é encontrar jovens indivíduos, homossexuais ou não que, movidos por vaidades ou até mesmo motivados pela crescente oferta de oportunidades vêem no trabalho apenas um “passa tempo”, não sendo capazes de suportar as fazes criticas da realização de uma empreitada nem tarefas que ao seu julgamento sejam “menos dignas”. Nas mesma forma de pensar, há aqueles que acham que é o dever da sociedade e dos setores de trabalho a adaptação completa do sistema para satisfazer suas necessidades ou anseios; julgam que os colegas devem adaptar-se ao seu jeito e não ele adaptar-se a agir de forma coordenada com o grupo. Uma visão completamente equivocada do indivíduo a sociedade em que vive e a qual é sua obrigação é, também, adaptar-se e contribuir da melhor maneira.
O despreparo do jovem em relação a prepara-lo a um futuro de trabalho, a falha no sistema organizacional onde o jovem deixa de compreender o valor do conhecimento, são fatores que nos fazem refletir se talvez os espartanos não estivessem com a razão em seu “racionalismo educacional”.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Iniciação Sexual

"Mais ou menos nessa idade (12 anos), seus amantes, que eram os rapazes mais galhardos e mais gentis, começavam a frequentá-los mais assiduamente, e também os velhos tinham as vistas semelhantemente voltadas para eles, aparecendo mais ordinariamente nos lugares onde faziam os exercícios e onde combatiam, e assistindo-os quando se divertiam em pilheriar um com os outros...”

Um trecho de difícil interpretação aos modernos espartanos, porém nos dá claro a entender que a iniciação sexual dos garotos em Esparta era feito por outros garotos e que os homens idosos apreciavam, porém de forma contida, os jovens. Porém, apesar de confirmar as relações homossexuais na formação do guerreiro espartano, a pratica de sexo com menores de idade é totalmente proibida e não tolerada, de forma igual a sociedade em geral o espartano deve estar consciente que pedofilia é crime!

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Corresponsabilidade Entre Parceiros

 “Além disso, imputavam-se aos amantes a boa ou má opinião que se concebia dos meninos que haviam tomado para amar, de sorte que se diz que, tendo certa vez um menino, combatendo contra outro, deixando escapar da boca um grito que lhe revelou a coragem frouxa e falida, seu amante foi por isso condenado à multa pelos oficiais da cidade. Mas, conquanto o amor fosse coisa tão incorporada entre eles que até as mulheres honestas e virtuosas amavam as meninas, não havia, contudo ciúmes, mas, ao contrário, era isso um começo de mútua amizade entre os que amavam no mesmo lugar; e procuravam juntos, por todos os meios de que podiam dispor, fazer que o menino que amava em comum fosse o mais gentil e o melhor condicionado de todos os outros. Ensinavam os meninos a falar de sorte que sua linguagem tivesse malícia misturada de graça e prazer, e que em poucas palavras compreendesse muita substância."

Novamente temos uma confirmação do caráter liberal em relação a homossexualidade do povo Espartano. Fica nesse parágrafo claro que os relacionamentos homossexuais eram comuns entre homens e também mulheres.
Um fato a se notar é a responsabilidade compartilhada dos atos praticados por parceiros. A falha de um pode acarretar uma punição ao outro, desta forma, entre amantes há sempre o encorajamento da virtude entre os parceiros. Outro ponto interessante é notar-se que havia um emprenho maior em preparar o jovem guerreiro que “amasse em conum”, isto pode ser interpretado como o parceiro que compartilhava seu amor com mais de um indivíduo.
Passível de diversar interpretações e analisando os moldes das relações heterossexuais espartanas, não havia as relações de ciúmes nem entre homens e mulheres nem entre homens e homens. Não se entrava em contenta por conta de ciúmes ou pluralidade nos relacionamentos.
Hoje, no entanto, a sociedade e o risco em se ter uma vida de pluralidade de parceiros, impões que se evite ao máximo relacionamentos “abertos”. O espartano deve buscar nas decisões afetivas sempre estar de acordo com o parceiro, decisões conjuntas, o respeito e a preservação da intimidade como bem do casal. Sem deixar de seguir a tradição espartana em buscar fazer do parceiro um indivíduo melhor, incentivando-o sempre a progredir e ajudando ao que tiver ao alcance.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco


Modo de Falar

"Porque exatamente assim como a semente dos homens luxuriosos, que se misturam frequentemente e dissolutamente demais com as mulheres, não pode germinar nem frutificar, também a intemperança de falar demais torna a palavra vã, tola e vazia de sentido. Daí vem que as respostas Lacônicas eram tão agudas e tão sutis...Quanto a mim, sou da opinião que os Laconios, em sua maneira de falar, não usam de muita linguagem, mas tocam muito bem no ponto e se fazem entender muito pelos ouvintes.”
“...pode-se também fazer conjectura de sua maneira de falar pelas palavras jocosas que as vezes diziam brincando, porque estavam acostumados a jamais dizer nada no ar ou em vão, tendo sempre em cada palavra alguma inteligência secreta que a tornava merecedora de ser considerada de perto...”

A economia de falar e o modo pensado de se expressar do espartano, fazia de suas palavras algo precioso.
Respostas sucintas são demonstração de inteligência.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Bem Vestir Oportuno

"Mas, então, relaxavam um pouco os jovens a rígida austeridade e dureza de sua regra ordinária de viver, permitindo-lhes que enfeitassem os cabelos e embelezassem as armas e indumentos...não eram jamais tão cuidadosos em pentear e compor como quando estavam prestes a dar batalha; pois então os untavam (os cabelos) com óleos perfumados e os repartiam...”
Temos aqui antes a idéia de vaidade entre os espartanos. Lembremos que somente aos guerreiros já adultos era permitido deixar os cabelos crescerem, desde jovem eles os mantinham raspados e somente quando adultos e prontos para a guerra é que os tinham longos, dessa forma, o cabelos representava também parte de sua virtude de guerreiro, um sinal de sua posição social. Por essa valorização empregavam-se óleos perfumados e flores, artigos usado em sacrifício aos deuses e em ocasiões muito especiais, entre elas as festas de Hyacintia, amante do deus Apolo. Em analogia podemos comparar os penteados dos espartanos aos penteados utilizados pelos samurais ou tribos guerreiras das Américas.
Apesar de relatos indicaram que durante a maior parte da vida os indivíduos submetidos ao agogê eram deixados em termos de vestimentas de forma precária e até lhes faltasse asseio, esse parágrafo, no entanto indica a permanência da vaidade em ocasiões especiais, como um elemento de reconhecimento e respeito do indivíduo as solenidades e a sociedade.
Hoje vemos na sociedade homossexual, no entanto, uma supervalorização da aparência, a vaidade extrapola limites e cria indivíduos com características andróginas pelo uso de elementos femininos em seus costumes. A boa aparência é antes um jogo em que o indivíduo tenta mascarar muitas vezes a decadência física sob roupas chamativas, brilho ou que demonstre poder econômico.
A vaidade espartana estava no cuidado com o corpo como uma demonstração a sociedade do seu prepara como elemento útil a sociedade (defesa do território) e o uso de adornos se fazia presente em ocasiões realmente importantes como em festas ou funerais. O uso de flores nos cabelos, citados em alguns textos, se explicam pelo fato de que entre os espartanos não havia a aquisição de bens supérfluos, não havia o costume de uso nem produção de jóias e as vestimentas eram poucas a cada indivíduo, dessa forma, como hoje fazem os índios, os guerreiros espartanos faziam uso de elementos encontrados na natureza, fazendo o uso coroas de flores, presas de caça e peles de animais.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Compromisso Social

"Mas, para voltar aos Lacedemônios, sua disciplina e regra de viver durava ainda depois de haverem chegado a idade de homens, pois não havia ninguém a quem fosse tolerado nem permitido viver como entendesse, antes ficavam dentro da cidade nem mais nem menos do que dentro de um acampamento, onde cada qual sabe o que deve ter para viver e o que deve fazer para público...”


O paralelo entre vida publica e vida privada. Cada um tem suas obrigações para com sua família, mas também para com a comunidade.
Muitas vezes, vemos entre homossexuais, um desligamento das relações familiares e uma desobrigação com a sociedade pois não vê obrigação em manter algo para as futuras gerações, já que não tem expectativas de ter filhos, não tem obrigação de construir um futuro melhor. Em contrapartida esses indivíduos desfrutam da herança que a sociedade lhe deixou através da luta de outros indivíduos anteriores a ele. Uma espécie de roubo onde se faz uso de algo sem “pagar” o justo valor.
Outra questão é que a idéia de “vitimização”, defendida entre os gays lhe dá de certa forma uma “carta branca” a agirem como quiserem sendo que a sociedade deverá tolerar toda espécie de excentricidade por conta do sofrimento que esta impõe aqueles indivíduos até que estes comecem a exigir “reparação”. Não devemos nós vivermos como parasitas sociais, sem darmos a sociedade nossa contribuição. Cada um de nós deve fazer o melhor para termos um sociedade mais justa, mesmo que não a desfrutemos em nosso presente, mas para os que após nós virão, afinal de contas somos devedores de nossos antepassados, homossexuais ou não.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco

Continuidade de Compromisso

“Em suma, nada deixou ocioso, pois entre todas as coisas que os homens não podem dispensar introduziu sempre algum aguilhão incitando os homens à virtude e fazendo-os odiar o vício; e encheu a cidade de belos e bons ensinamentos e exemplos, de forma que o homem assim educado, encontrando-os sempre diante dos olhos em qualquer parte onde se achasse, vinha por força moldar-se e formar no padrão de virtude”.

“Em suma, nada deixou ocioso, pois entre todas as coisas que os homens não podem dispensar introduziu sempre algum aguilhão incitando os homens à virtude e fazendo-os odiar o vício; e encheu a cidade de belos e bons ensinamentos e exemplos, de forma que o homem assim educado, encontrando-os sempre diante dos olhos em qualquer parte onde se achasse, vinha por força moldar-se e formar no padrão de virtude”.

Aqui fica a confirmação de que a sociedade espartana vivia em constante compromisso com a melhoria do homem em sociedade. Eram vigilantes em combatar a ociosidade e o vício, incentivando o homem a ser sempre melhor.

De: “A Vida dos Homens Ilustres” – Licurgo – Autor: Plutarco