quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Lembrando de Nicky Crane

Algumas vezes somos confrontados por coisas ou acontecimentos do passado. O fato é que, por mais que se pense estar vivendo num país democrático, numa verdadeira era de “liberdades” a formação da população brasileira é ainda muito conservadora naquilo que se refere a orientação sexual.
Espartanos que somos, dentro de nossa discrição e de uma atitude mais natural em relação a forma de vida, não estamos isentos, contudo, de passarmos pelas revistas desagradáveis dos guardiões da sociedade moralista. Esta sociedade, geralmente formada por pessoas insatisfeitas com sua própria vida, transfere ao outro a responsabilidade pelas mazelas que, segundo eles, transformam o mundo em um lugar caótico e angustiante de se viver, justificando-se por “princípios, heranças” apegam-se a isso na defesa dessa sociedade que não consegue avançar no respeito às minorias, ao diferente.
Esses tempos, estava me lembrando de um personagem que tomei conhecimento há muitos anos, chamava-se Nicky Crane. Imagino que ele tenha sido um daqueles indivíduos que, lutando para ter um lugar em uma sociedade extremamente conservadora e até agressiva em relação a homossexualidade, acabou se envolvendo e, quem sabe, até mesmo acreditando em uma ideologia que seguia no sentido inverso dos seus sentimentos e mesmo interesses emquanto indivíduo. Nicky Crane se envolveu com o Nacional Front na Inglaterra e tornou-se posteriormente segurança em uma banda “propaganda” do mesmo partido, a Skewdriver de Ian Stuart.
Conta-se que era um homem muito corajoso, um brigão, calado, reservado, porém mantinha uma vida dupla que de certo modo era justificada ou disfarçada pelo serviços como segurança em casas noturnas gays em Londres. Ao mesmo tempo que servia com um modelo do homem valoroso dentro desse grupo extremamente preconceituoso, também era visto envolvido dentro das relações complicadas da sociedade gay na década de 70/80, participando até mesmo das primeiras manifestações de defesa dos direitos dos homossexuais. Tanto de um lado como do outro, os que os cercavam “desconfiavam” dessa sua vida dupla, porém o seu temperamento agressivo desencorajava que os companheiros perguntassem; talvez até nem quisessem mesmo saber para não serem tomados como “coniventes” dessa verdade duplamente inconveniente.
A história em relação a descoberta de sua vida dupla é um tanto confusa, mas o que importa realmente é que ele foi descoberto e exposto até mesmo como artigo de jornal sensacionalista para ser em seguida expulso e repudiado dentro do grupo ao qual, por tantos anos, tinha prestado seu trabalho, costuma-se dizer que ele foi nessa trajetória "do céu ao inferno". Ridicularizado, desvalorizado como indivíduo e tendo sua qualidade de homem e de coragem achincalhada numa tentativa vergonhosa de justificar essa “falha de detecção” dessa "sociedade perfeita", ainda hoje é lembrado como uma história incômoda.
Não quero aqui transforma-lo em herói, ao contrário, sua trajetória é pouco louvável naquilo que fez como escolhas,  mas sim colocá-lo como um exemplo de como as pessoas podem ser complexas e as relações entre indivíduos, mesmo aqueles os quais se conhecem a bastante tempo e convivem intensamente, podem ser abaladas quando se tem expostos valores tão enraizados dentro de uma sociedade como a nossa, quando a homossexualidade é posta a mesa. Muitas vezes somos tentados a acreditar na boa reação daqueles que nos cercam, imaginando que este “nos conhecer tão bem” irá advogar em nossa causa, porém, ao longo da vida, tenho visto muito mais o contrário: o espanto hipócrita, a surpresa dissimulada seguida de um afastamento progressivo com justificativas confusas daqueles indivíduos que, até ontem, eram nossos melhores amigos. Não sou capaz de ver como bom negócio essa exposição desnecessária de sua intimidade, de sua vida mais particular. Peço aos jovens que tenham cautela, avaliem os limites de sua segurança, de seus interesses e de suas relações de amizade e confiança!