sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Humor Barato x Ética

Indo trabalhar, lá pelas 7 da manhã, naquele horário onde quase toda irritação do mundo se concentra em coisas pequenas, o motorista do ônibus sintonizou o rádio em uma daquelas estações típica dos idiotas. Somente a falta de informação, a ignorância em sua forma mais bruta pode justificar a preferência por programas onde as pessoas ligam para serem esculhambadas... enfim, o mundo não é perfeito!
Irritações a parte o ponto da questão é que lá estavam berrando um ou dois radialistas, escachando com um apresentador de televisão; a todo o instante o radialista que comandava a balburdia auditiva repetia:
O que vc é mesmo Sr. Fulano?
Então aparecia a voz do próprio apresentador falado; “Bicha”!!!!!
E explodiam-se risadas...
Vale então lembrar que “bicha” no “palavrório popular” serve para referir-se de forma a menosprezar o indivíduo homossexual, logo, ao achar graça no “ser bicha do apresentador”, acha-se motivo de graça a “homossexualidade”.
Absurdos a parte, acho que todo mundo tem a opção de escolher aquilo que quer consumir. Cultura nunca foi questão de dinheiro (cultura folclórica, cultura naif, cultura circense...), e acesso a coisas boas nunca dependeu necessariamente de riqueza. São questões de escolha. Porém, um dia, em situações como esta, você também tem que engolir a sua colherada de merda! Ouvir quase que obrigado um programa de péssima qualidade.
Desde minha infância tenho visto uma mudança significativa na forma de lidar com o humor. Questões de censura, questões do “politicamente correto”, questões de escolhas. Vale lembrar que antes de tudo, em qualquer profissão existem as questões de ética; a ética profissional não permite que se trate de forma desigual os indivíduos nem se desrespeite qualquer ser humano em sua condição de “ser humano”, isto é, imperfeições, diferenças, particularidades. O humor dever ser feito com inteligência, sem apelo ofensivo as minorias, deve ter graça pela situação incomum e não pela ridicularizarão do indivíduo a ponto da humilhação.
Quando se chama o apresentador de “bicha”, mesmo que por brincadeira, a mensagem é a de que por ser “bicha” – homossexual afeminado – torna-se permitido servir de ridículo pelas pessoas que se consideram “normais”: “Vamos rir da Bicha”! Quando se permite rir da “bicha do apresentador” também se dá carta branca para rir de qualquer pessoa identificável como “bicha”, é aí que se inicia o problema. Quando o próprio “bicha” ri do “bicha”, isso se torna triste.
Não ouvirei mais aquela rádio, pelo mesmo motivo que desligo a televisão em determinados programas. Acho que é a maior forma de protesto que está ao alcance de um indivíduo. Esta rádio, naquele dia, perdeu para sempre um ouvinte, um consumidor para seus anunciantes, um patrocinador e participantes para seus eventos. Esse é meu protesto.






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