terça-feira, 30 de agosto de 2016

Inadequadamente Adequado

Havia já algum tempo que não escrevia. Por um certo momento parece que escrever ou falar sobre determinadas coisas acabaram perdendo a relevância, porém, como uma árvore que se planta em um canto do jardim, as ideias crescem e criam raízes e ramificações e uma hora somos obrigados a nota-la novamente, dar-lhe um trato, uma poda.
O fato é que o afastamento se deu ao mesmo passo que, de certa forma, eu buscava novamente um a paz de relações que me incomodavam um pouco dentro do meio gay. A entrada dentro desse circulo se dá sempre pelo lugar comum de busca por uma liberdade de expressão de ideias e relacionamentos, porém como tudo nessa vida, tem suas desvantagens e seu preço.
Comparando hoje, é muito clara a diferença nas relações que envolvem os relacionamentos entre homens que se sentem atraídos por outros homens e aquela do mundo "hetero". Na verdade falar de normalidade é algo muito perigoso, pois não existe normalidade em parte alguma. O ser humano é supreendentemente diverso em relação a personalidade e ideias e classificar como normal é de certa forma errar por "padronizar" algo que não pode ser. Dessa forma, talvez seja possível falar em adequação.
Quando transpomos os limites de uma sociedade a outra, de um grupo a outro, passamos, sim, por esse processo de adequação e o que me parece o elemento chave é exatamente isso: o quanto podemos nos adequar para viver em um grupo ou outro? O quanto de mudanças temos que fazer em nós mesmo para alcançar esses oásis de convivência pacífica?
Tudo que é novo é muito bem vindo de uma forma geral, mas com o tempo, as responsabilidade e a representatividade dentro desses grupos, sejam gays ou heteros, nos obrigam a pesar os custos e os benefícios.
Então eis o ponto crucial: de um lado tenho uma sociedade onde há a valorização do jovem, do belo, do bonito, do bem sucedido; de outro lado uma outra sociedade que procura equilibrar historicamente a falta da juventude pela experiência, o bonito pelo significativo, o bem sucedido pelo relevante dentro das relações do grupo. Entenda-se que aqui falamos de duas "micro-sociedades" apartadas da sociedade comum, da mídia, do "normal". Dentro e fora ao mesmo tempo. As os grupos masculinos de forma comum, tendem a ter essas características, uma hierarquia formada pelo tempo de convivência e realizações ao coletivo.
Vamos parar e pensar um momento em que tipo de sociedade, de grupo, de pessoas gostaríamos de encontrar entre espartanos, entre nós!
Como disse um bom amigo, "afastar-se do meio gay é um clássico entre nós", porém o que eu questiono aqui é: "Quantos de nós realmente refletiram a respeito de o que os fez fazer isso"?
A questão é que não adianta afastar-se ou se por disposto a construir algo novo, uma fraternidade, sem que exista também a consciência e o compromisso de abrir mãos das características que nos propomos a deixar para trás. A inadequação de atitudes e pensamentos dentro de um ideal, de um mundo intencionado como adequado.
Há uma máxima punk que diz que "saiu do punk, mas o punk num saiu dele", isto é, os hábitos estão tão arraigados dentro da personalidade do indivíduo que este não consegue ser outra coisa, pode mudar de aparência, pode falar diferente, mas o sentimento e a maneira de pensar continua a mesma. O que se serve é o mesmo, só mudou-se a travessa"
Simplesmente transpondo sem a "adequação" correta entre nós, essa vontade de mudança, estaremos na verdade somente criando "subgrupos" do que já existe: espartanos bears, espartanos fetichistas, espartanos "habitues" dos mesmo lugares (saunas, boites, chats e pontos de "caça"), das mesmas relações.
Para mim, ser espartano é ser homem simplesmente, adequado a qualquer lugar sem dar muita satisfação de como e com quem me deito, de onde ou com quem vou. Espartano é antes de tudo defender minha dignidade reconhecendo da importância que tenho em viver em sociedade.
Desde o principio me recusei a viver em "guetos". Ser espartano é ser adequado, mesmo onde tudo é inadequado.



3 comentários:

  1. Gostei da reflexão, é consistente com as categorizações e subdivisões a que tudo está imerso, mas eu pensava que os espartanos já eram vistos como um subgrupo dentro do grupo e que a nossa doutrina não diferenciava um ou outro, a não ser se fosse pela diferença de opinião e não física. EU realmente não entendo isso!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Creio que o ponto central nesse entendimento é você considerar que os espartanos não são necessariamente um componente do universo GLBT, e sim uma categoria de homens a parte dessa classificação. Existe uma confusão em se relacionar o homossexual como parte inseparável da cultura gay, o que não é correto. Não costumamos classificar heterossexuais como: bears, leathers, barbies, bofes; porque então deveríamos usar esses mesmo nipe de classificações para os espartanos? É como que o tempo todo retrocedêssemos aquilo que tentamos modificar, reafirmando que somos apenas uma subcultura do universo gay.

      Excluir
  2. Sempre adequado; nos faz pensar sobre aquilo que evitamos ou que não vemos.

    ResponderExcluir